Coprodução internacional: por onde começar
Publicado em Atualizado emQuando Walter Salles subiu ao palco em Los Angeles para receber o Oscar de Melhor Filme Internacional por Ainda Estou Aqui, o Brasil celebrou um feito inédito em quase cem anos de premiação. Um ano depois, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, recebe 4 indicações para a mesma premiação.
Como muitos filmes que chegam a grandes festivais, o que esses dois filmes têm em comum, além de serem brasileiros, é que ambos são coproduções com outros países. No caso de Ainda Estou Aqui, entre Brasil e França; e de O Agente Secreto, entre Brasil, França, México e Alemanha. O Oscar, aqui, não foi só uma vitória artística: foi o resultado de uma estrutura de produção construída de forma deliberada.
A pergunta que muitos produtores independentes fazem depois de um evento como esse é inevitável: como se faz isso? Como um projeto brasileiro chega a uma parceria internacional formal, circula por centenas de festivais em todo o mundo e conquista a principal premiação do cinema global? A resposta não passa por um talento específico nem por um golpe de sorte, passa por uma compreensão bastante profunda de como o mercado de coprodução funciona.
Talvez a ideia de trabalhar com um parceiro global te inspire, ou talvez você esteja trabalhando em um roteiro incrível que une dois países, seja qual for o caso, estamos aqui para te ajudar a desmistificar o conceito de coproduções. Este nosso artigo ajuda a compreender, partindo de dados concretos do setor brasileiro e de nossa experiência prática de como funciona e por onde começar uma coprodução internacional, além de vantagens, os requisitos e as estratégias para coproduções bem-sucedidas na indústria cinematográfica.
O que é uma coprodução internacional, na prática
Uma coprodução internacional é uma parceria formal entre produtoras de países diferentes para desenvolver e produzir uma obra audiovisual. Cada parte contribui com capital, serviços, infraestrutura, equipe e talento criativo, e em troca, a obra adquire a nacionalidade de todos os países envolvidos.
As coproduções podem ser oficiais ou não oficiais:
Coprodução oficial: se forma quando dois parceiros de produção de países que possuem um acordo formal entre si concordam em trabalhar juntos e adequam seu projeto aos requisitos de financiamento governamental nacional ou regional.
Coprodução não oficial: ocorre quando não existe um acordo entre os países ou quando um projeto entre países com acordo não atende aos critérios oficiais de qualificação.
A dupla (ou múltipla) nacionalidade é o mecanismo que torna a coprodução atraente do ponto de vista econômico. Por exemplo: uma obra brasileira-francesa pode acessar editais de fomento nos dois países, qualificar-se para cotas de exibição em ambos os mercados, concorrer em categorias de cinema nacional em festivais de cada território e beneficiar-se de sistemas de benefício fiscal que, de outra forma, seriam inacessíveis.
No Brasil, as coproduções internacionais são formalizadas por meio de acordos bilaterais ou multilaterais que o país mantém com outros países e reconhecidas pela ANCINE.
Do ponto de vista estrutural, existem dois modelos principais:
- Coprodução majoritária: uma das produtoras lidera o projeto, detém maior participação financeira, controla as decisões criativas centrais e geralmente orienta a estratégia de distribuição.
- Coprodução minoritária: o parceiro estrangeiro entra com uma contribuição menor, frequentemente associada à viabilização de financiamento local ou ao acesso a um mercado específico. Há ainda o modelo multilateral, em que três ou mais países participam.
O que todos esses modelos têm em comum é a necessidade de uma arquitetura contratual clara desde o início: quem detém quais direitos, em quais territórios, por quanto tempo, e como os créditos são distribuídos. Esses pontos, se deixados para depois, costumam se tornar o principal obstáculo à conclusão do projeto.
Dados de Coproduções Brasileiras
O Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA), vinculado à ANCINE, publica painéis interativos que permitem uma leitura bastante detalhada do comportamento das coproduções internacionais brasileiras ao longo do tempo. O Panorama Coproduções Internacionais Brasil 2015–2024, divulgado em dezembro de 2025, oferece um retrato abrangente da última década.
O dado mais imediato é o volume: o Brasil concluiu 242 longas-metragens em regime de coprodução internacional entre 2015 e 2024, envolvendo 37 países diferentes. O ano de 2024 foi o de maior volume da série histórica, com 50 obras concluídas. O setor também registrou um recorde de 151 solicitações de Reconhecimento Provisório de Coprodução Internacional apenas em 2022, sinal de que o pipeline de projetos em desenvolvimento é significativamente maior do que o número de obras concluídas.
A geografia dessas parcerias é reveladora. Argentina lidera com 68 filmes coproduzidos no período, seguida por Portugal (49) e França (48). Uruguai e Alemanha aparecem na sequência, com 22 e 21 obras, respectivamente. O padrão reflete tanto a proximidade cultural e linguística quanto a existência de acordos bilaterais ativos: são exatamente esses os países com quem o Brasil mantém tratados formais de coprodução mais consolidados.
A janela de exibição predominante ainda são as salas de cinema, que correspondem a 73% dos lançamentos de coproduções. Mas o dado mais interessante está nos outros 27%: obras destinadas inicialmente a plataformas de TV paga, VoD e outros segmentos. Nesse subconjunto, o formato seriado representa 61% e o documentário, 52% o que indica uma adaptação clara da coprodução às novas lógicas de distribuição. O mercado de séries, em particular, tem atraído parcerias com plataformas europeias e streamers regionais que buscam conteúdo com apelo local e possibilidade de distribuição internacional.
Para o produtor independente, esses dados têm uma leitura prática: o mercado de coprodução brasileiro não é dominado por grandes estúdios, é um ecossistema de médias e pequenas produtoras que aprenderam a construir parcerias internacionais como parte da estratégia de viabilização financeira. E a janela de oportunidade, segundo o próprio panorama da ANCINE, tende a crescer nos próximos anos, com novos editais bilaterais.
Ok, mas como eu começo?
A pergunta prática que abre este artigo merece uma resposta igualmente prática. Uma coprodução internacional não começa com um acordo assinado, começa muito antes, na fase de desenvolvimento do projeto. E começa com uma pergunta específica: este projeto tem elementos que o tornam relevante para mais de um mercado?
Não se trata necessariamente de uma história universal ou de um tema sem raízes culturais. Pelo contrário: os projetos que mais avançam em processos de coprodução são aqueles com forte identidade local e, ao mesmo tempo, algum ponto de entrada para o parceiro estrangeiro, seja um personagem de origem mista, uma locação que interessa ao parceiro, uma história com impacto em outro território, um diretor ou roteirista com reconhecimento no país pretendido, ou mesmo um parceiro nesse país.
O segundo passo é identificar o mecanismo adequado. O Brasil mantém acordos de coprodução cinematográfica com diversos países, além dos multilaterais Cada acordo tem suas próprias condições, percentuais mínimos de participação financeira, exigências de equipe técnica e criativa de cada território, e critérios de reconhecimento pelas autoridades competentes em cada país. Conhecer as especificidades do acordo relevante para o projeto é o ponto de partida antes de qualquer aproximação com um potencial coprodutor.
O terceiro elemento é o timing. Projetos apresentados a coprodutores internacionais em fase de desenvolvimento têm muito mais possibilidade de engajamento real do que projetos prontos à procura de um parceiro formal para acessar benefícios. O coprodutor que entra na fase de roteiro tem interesse criativo e financeiro genuíno no projeto; o que entra na pós-produção é, na melhor das hipóteses, um mecanismo de captação.
Onde encontrar um coprodutor?
Existe um entendimento comum de que festivais de cinema são eventos de prestígio, associados ao reconhecimento artístico e à celebração de obras já concluídas. Porém, sua importância vai muito além do lançamento e da exibição de filmes. Para projetos que ainda estão em fase de desenvolvimento ou captação de recursos, os festivais podem ser o início de importantes encontros, parcerias e negociações. Muitos festivais possuem mercados, reunindo produtores, agentes de vendas, distribuidores, investidores e outros profissionais da indústria audiovisual.
O Cannes Film Market, a sidebar comercial do Festival de Cannes, reúne anualmente mais de 14.000 profissionais credenciados e mais de 300 empresas de vendas internacionais. Berlim tem o EFM (European Film Market). Toronto tem o TIFF Industry. Rotterdam tem o CineMart, dedicado exclusivamente a projetos em desenvolvimento. Sundance tem o Labs. Cada um desses eventos tem uma estrutura paralela à programação competitiva onde projetos são apresentados, parcerias são negociadas e deals de distribuição são fechados. Na América Latina destacamos o Ventana Sur, o Festival de Cinema de Guadalajara e o Rio2C no Rio de Janeiro.
Um projeto brasileiro apresentado no CineMart de Rotterdam ou no Co-Production Market de Berlim chega diretamente a produtores europeus que estão ativamente buscando projetos para cofinanciar, e que têm acesso a fundos de apoio como o Eurimages ou os mecanismos de fomento do CNC francês e do ICA português.
O mercado de festivais é uma excelente ferramenta. A maioria dos grandes festivais mantém laboratórios ou fóruns de desenvolvimento voltados a projetos em estágio inicial, o Torino Film Lab, o EAVE, o MFI Script2Film, o programa de residências de Rotterdam e o programa Ibermedia. Esses espaços são os locais onde produtores independentes com projetos em desenvolvimento têm acesso a coprodutores, financiadores e consultores que normalmente estão fora do alcance de uma produtora pequena. A seleção para um desses programas, por si só, já abre portas para buscas de coprodutores.
Avaliando um coprodutor
Em muitos casos, as coproduções são buscadas quando dois produtores que se conhecem bem já desenvolveram confiança e transparência um no outro. Mas se você está começando agora e procura um coprodutor viável, é importante saber quais características procurar.
Em um cenário ideal, você e seu coprodutor terão: um idioma em comum ou facilidade com os diferentes idiomas; uma abordagem semelhante de produção; experiência com a logística de movimentação de dinheiro, pessoas e equipamentos entre fronteiras; acesso a bons benefícios financeiros e incentivos em seu país; um bom acesso a locais, serviços e pessoas.
Avalie qualquer coprodutor em potencial da mesma forma que avaliaria qualquer contratação importante: verifique as referências, analise o trabalho deles, conheça o estilo de trabalho, observe os perfis nas redes sociais e a marca pessoal, e certifique-se de que o estilo deles combina com o seu.
Estruturação jurídica
Por fim, a estrutura jurídica. O acordo de coprodução é um contrato complexo que precisa estar alinhado com as exigências de ambos os países, com os mecanismos de fomento que cada parte vai acionar, e com as obrigações de distribuição e exibição decorrentes de cada janela prevista para o projeto. Não é um documento que se resolve com um modelo genérico: cada coprodução tem especificidades que exigem atenção ao contexto regulatório de cada território envolvido. Cada projeto merece ter a atenção de uma boa estrutura, que será refletida no contrato, mas que começa muito antes.
Uma coprodução formal, construída desde o desenvolvimento, com parceiros estratégicos e distribuição pensada para múltiplos territórios, é uma forma de aumentar estruturalmente as chances de um projeto chegar a festivais relevantes, acessar fontes de financiamento internacionais e circular em mercados que de outra forma estariam fechados.
Os dados do OCA mostram que o Brasil está construindo esse caminho de forma consistente: 242 obras em uma década, crescimento contínuo, novos acordos entre países no horizonte. E para quem está desenvolvendo um projeto com potencial de circulação internacional, entender como esse mercado funciona é o primeiro passo bem antes de qualquer câmera ser ligada.
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Este artigo tem caráter informativo e não constitui aconselhamento jurídico. Cada coprodução tem especificidades próprias que demandam análise individualizada. Para orientação desde comparação de incentivos, estruturação de acordos de coprodução internacional, bem como para atender a todas as suas necessidades de incentivos à produção entre em contato com a equipe da Piazentin Estúdio Jurídico e conte com toda uma rede de advogados em toda Ibero-América.