Coprodução internacional: por onde começar
Publicado em 08/06/2026Quando Walter Salles subiu ao palco em Los Angeles para receber o Oscar de Melhor Filme Internacional por Ainda Estou Aqui, o Brasil celebrou um feito inédito em quase cem anos de premiação.
O filme é uma coprodução como muitos que chegam a grandes festivais. O Oscar não foi só uma vitória artística, foi o resultado de uma estrutura de produção construída de forma deliberada.
A pergunta que muitos produtores independentes fazem depois de um evento como esse é inevitável: como se faz isso? Como um projeto brasileiro chega a uma parceria internacional formal, circula por mais de cinquenta festivais em todo o mundo e conquista a principal premiação do cinema global? A resposta não passa por um talento específico nem por um golpe de sorte, passa por uma compreensão bastante profunda de como o mercado de coprodução funciona.
Este nosso artigo ajuda a compreender, partindo de dados concretos do setor brasileiro e de nossa experiência prática como funciona e por onde começar uma coprodução internacional.
O que é uma coprodução internacional, na prática
Uma coprodução internacional é uma parceria formal entre produtoras de países diferentes para desenvolver e produzir uma obra audiovisual. Cada parte contribui com capital, serviços, infraestrutura, equipe e talento criativo, e em troca, a obra adquire a nacionalidade de todos os países envolvidos.
Essa dupla (ou múltipla) nacionalidade não é um detalhe burocrático. É o mecanismo que torna a coprodução atraente do ponto de vista econômico: uma obra brasileira-francesa pode acessar editais de fomento nos dois países, qualificar-se para cotas de exibição em ambos os mercados, concorrer em categorias de cinema nacional em festivais de cada território e beneficiar-se de sistemas de benefício fiscal que, de outra forma, seriam inacessíveis.
No Brasil, as coproduções internacionais são formalizadas por meio de acordos bilaterais ou multilaterais que o país mantém com outros países e reconhecidas pela ANCINE.
Do ponto de vista estrutural, existem dois modelos principais. Na coprodução majoritária, uma das produtoras lidera o projeto, detém maior participação financeira, controla as decisões criativas centrais e geralmente orienta a estratégia de distribuição. Na coprodução minoritária, o parceiro estrangeiro entra com uma contribuição menor, frequentemente associada à viabilização de financiamento local ou ao acesso a um mercado específico. Há ainda o modelo multilateral, em que três ou mais países participam.
O que todos esses modelos têm em comum é a necessidade de uma arquitetura contratual clara desde o início: quem detém quais direitos, em quais territórios, por quanto tempo, e como os créditos são distribuídos. Esses pontos, se deixados para depois, costumam se tornar o principal obstáculo à conclusão do projeto.
Dados Coproduções Brasileiras
O Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA), vinculado à ANCINE, publica painéis interativos que permitem uma leitura bastante detalhada do comportamento das coproduções internacionais brasileiras ao longo do tempo. O Panorama Coproduções Internacionais Brasil 2015–2024, divulgado em dezembro de 2025, oferece um retrato abrangente da última década.
O dado mais imediato é o volume: o Brasil concluiu 242 longas-metragens em regime de coprodução internacional entre 2015 e 2024, envolvendo 37 países diferentes. O ano de 2024 foi o de maior volume da série histórica, com 50 obras concluídas. O setor também registrou um recorde de 151 solicitações de Reconhecimento Provisório de Coprodução Internacional apenas em 2022, sinal de que o pipeline de projetos em desenvolvimento é significativamente maior do que o número de obras concluídas.
A geografia dessas parcerias é reveladora. Argentina lidera com 68 filmes coproduzidos no período, seguida por Portugal (49) e França (48). Uruguai e Alemanha aparecem na sequência, com 22 e 21 obras, respectivamente. O padrão reflete tanto a proximidade cultural e linguística quanto a existência de acordos bilaterais ativos: são exatamente esses os países com quem o Brasil mantém tratados formais de coprodução mais consolidados.
A janela de exibição predominante ainda são as salas de cinema, que correspondem a 73% dos lançamentos de coproduções. Mas o dado mais interessante está nos outros 27%: obras destinadas inicialmente a plataformas de TV paga, VoD e outros segmentos. Nesse subconjunto, o formato seriado representa 61% e o documentário, 52% — o que indica uma adaptação clara da coprodução às novas lógicas de distribuição. O mercado de séries, em particular, tem atraído parcerias com plataformas europeias e streamers regionais que buscam conteúdo com apelo local e possibilidade de distribuição internacional.
Para o produtor independente, esses dados têm uma leitura prática: o mercado de coprodução brasileiro não é dominado por grandes estúdios — é um ecossistema de médias e pequenas produtoras que aprenderam a construir parcerias internacionais como parte da estratégia de viabilização financeira. E a janela de oportunidade, segundo o próprio panorama da ANCINE, tende a crescer nos próximos anos, com novos editais bilaterais previstos com Portugal e Uruguai.
Os festivais são o começo da relação
Existe um entendimento comum de que festivais de cinema são eventos de prestígio, espaços para o reconhecimento artístico de obras que já estão prontas. Pórem mais do que o lançamento dos filmes os festivais são o começo de um namoro para quem está em fase de desenvolvimento ou captação muitos festivais também são mercados.
O Cannes Film Market, a sidebar comercial do Festival de Cannes, reúne anualmente mais de 14.000 profissionais credenciados e mais de 300 empresas de vendas internacionais. Berlim tem o EFM (European Film Market). Toronto tem o TIFF Industry. Rotterdam tem o CineMart, dedicado exclusivamente a projetos em desenvolvimento. Sundance tem o Labs. Cada um desses eventos tem uma estrutura paralela à programação competitiva onde projetos são apresentados, parcerias são negociadas e deals de distribuição são fechados.
Para projetos em busca de coprodutores internacionais, a lógica é bastante direta: o mercado de festivais é onde os produtores encontram seus parceiros. Um projeto brasileiro apresentado no CineMart de Rotterdam ou no Co-Production Market de Berlim chega diretamente a produtores europeus que estão ativamente buscando projetos para cofinanciar — e que têm acesso a fundos de apoio como o Eurimages ou os mecanismos de fomento do CNC francês e do ICA português.
Pesquisas recentes sobre o circuito global de festivais confirmam o que produtores já sabem empiricamente: o circuito não é um campo nivelado. Países com economias maiores e línguas de maior circulação internacional têm vantagem estrutural na presença em festivais relevantes. Mas países menores ou periféricos podem superar essa desvantagem por meio de parcerias estratégicas, e a coprodução é um bom instrumento para isso.
Ainda Estou Aqui é o exemplo mais recente e mais visível desse mecanismo em operação. A estreia em Veneza — onde venceu o prêmio de Melhor Roteiro —, a seleção subsequente para Toronto, Nova York, Londres e San Sebastián, e a circulação por mais de 50 festivais ao longo de meses não foram eventos espontâneos. Foram resultado de uma estratégia de lançamento construída sobre a estrutura da coprodução Brasil-França, que incluiu a ARTE France como parceira, deu ao filme caráter de produção europeia em mercados relevantes e viabilizou o acesso a canais de distribuição que dificilmente estariam disponíveis para uma produção 100% brasileira.
Por onde começar, na prática
A pergunta prática que abre este artigo merece uma resposta igualmente prática. Uma coprodução internacional não começa com um acordo assinado — começa muito antes, na fase de desenvolvimento do projeto. E começa com uma pergunta específica: este projeto tem elementos que o tornam relevante para mais de um mercado?
Não se trata necessariamente de uma história universal ou de um tema sem raízes culturais. Pelo contrário: os projetos que mais avançam em processos de coprodução são aqueles com forte identidade local e, ao mesmo tempo, algum ponto de entrada para o parceiro estrangeiro, seja um personagem de origem mista, uma locação que interessa ao parceiro, uma história com impacto em outro território, um diretor ou roteirista com reconhecimento no país pretendido, ou mesmo um parceiro nesse país.
O segundo passo é identificar o mecanismo adequado. O Brasil mantém acordos de coprodução cinematográfica com diversos países, além dos multilaterais Cada acordo tem suas próprias condições, percentuais mínimos de participação financeira, exigências de equipe técnica e criativa de cada território, e critérios de reconhecimento pelas autoridades competentes em cada país. Conhecer as especificidades do acordo relevante para o projeto é o ponto de partida antes de qualquer aproximação com um potencial coprodutor.
O terceiro elemento é o timing. Projetos apresentados a coprodutores internacionais em fase de desenvolvimento têm muito mais possibilidade de engajamento real do que projetos prontos à procura de um parceiro formal para acessar benefícios. O coprodutor que entra na fase de roteiro tem interesse criativo e financeiro genuíno no projeto; o que entra na pós-produção é, na melhor das hipóteses, um mecanismo de captação.
O mercado de festivais entra aqui como ferramenta. A maioria dos grandes festivais mantém laboratórios ou fóruns de desenvolvimento voltados a projetos em estágio inicial, o Torino Film Lab, o EAVE, o MFI Script2Film, o próprio programa de residências de Rotterdam. Esses espaços são os locais onde produtores independentes com projetos em desenvolvimento têm acesso a coprodutores, financiadores e consultores que normalmente estão fora do alcance de uma produtora pequena. A seleção para um desses programas, por si só, já é um sinal de mercado que facilita aproximações futuras.
Por fim, a estrutura jurídica. O acordo de coprodução é um contrato complexo que precisa estar alinhado com as exigências de ambos os países, com os mecanismos de fomento que cada parte vai acionar, e com as obrigações de distribuição e exibição decorrentes de cada janela prevista para o projeto. Não é um documento que se resolve com um modelo genérico: cada coprodução tem especificidades que exigem atenção ao contexto regulatório de cada território envolvido. Cada projeto merece ter a atenção de uma boa estrutura, que será refletida no contrato, mas que começa muito antes.
O Oscar de Ainda Estou Aqui abriu uma conversa importante sobre o potencial do cinema brasileiro no mercado internacional. Mas o mais relevante para produtores independentes não é o troféu em si — é o modelo. Uma coprodução formal, construída desde o desenvolvimento, com parceiros estratégicos e distribuição pensada para múltiplos territórios, é uma forma de aumentar estruturalmente as chances de um projeto chegar a festivais relevantes, acessar fontes de financiamento internacionais e circular em mercados que de outra forma estariam fechados.
Os dados do OCA mostram que o Brasil está construindo esse caminho de forma consistente: 242 obras em uma década, crescimento contínuo, novos editais no horizonte. O circuito ainda é concentrado em poucos parceiros e formatos, mas o movimento é claro. E para quem está desenvolvendo um projeto com potencial de circulação internacional, entender como esse mercado funciona é o primeiro passo bem antes de qualquer câmera ser ligada.
Este artigo tem caráter informativo e não constitui aconselhamento jurídico. Cada projeto de coprodução tem especificidades próprias que demandam análise individualizada. Para orientação sobre estruturação de acordos de coprodução internacional, direitos autorais e contratos no setor audiovisual, entre em contato com a equipe do Piazentin Advogados.